Sobre Murakami / Ensaio

O espelho de Murakami

Ilustração de Haruki Murakami diante de um espelho, em vermelho, preto e azul

Leio Murakami em Porto Alegre e tenho a impressão de conhecer aquele mundo. Reconheço os Beatles que dão título a Norwegian Wood, o espaguete que o narrador de Crônica do pássaro de corda está cozinhando quando o telefone toca, a cerveja gelada, os apartamentos pequenos de gente que volta do trabalho sem saber muito bem para que trabalhou. Não é a minha vida, mas é uma vida que eu sei ler sem esforço. Ao mesmo tempo, sei que estou num lugar que não é o meu. Há um carneiro que entra nas pessoas, um poço no fundo de um terreno baldio, uma floresta onde o tempo parou, uma guerra antiga que ninguém nomeia direito e que continua agindo sobre o presente. Familiar e estranho na mesma página.

Durante muito tempo achei que isso se explicava pelo gosto ocidental dele. Murakami leu Kafka, Dostoiévski, Kerouac, Vonnegut. Traduziu Carver, Fitzgerald e Chandler. Chegou a escrever em inglês para depois verter para o japonês, e o resultado é uma prosa que soa meio estrangeira aos ouvidos japoneses. Parte da crítica do país nunca o perdoou por isso. Nós, ocidentais, leríamos com facilidade porque reconhecemos a casa.

Essa explicação, porém, não fecha. Se o que ele carrega fosse só o Ocidente, os leitores da China, de Taiwan e da Coreia o leriam como exótico. Ali ele virou fenômeno de massa, justamente em países com relações históricas difíceis com o Japão, e o livro que abriu esse caminho foi Norwegian Wood, o mais realista de todos, sem carneiros nem poços. Uma história de juventude, perda e cidade grande. O leitor de Xangai não encontra ali um Japão americanizado. Encontra a própria cidade: o dormitório estudantil, o emprego, a vida de classe média que a modernização trouxe e que ninguém ensinou a habitar.

O que Murakami escreve, então, talvez esteja aquém dessa divisão entre Ocidente e Oriente. Ele escreve a cidade moderna, esse lugar que se parece em toda parte e não pertence a ninguém. Os japoneses têm uma palavra para isso, mukokuseki, algo como “sem nacionalidade”. E a gente lê de fora achando que está vendo o Japão.

Aqui mora o risco. O que reconheço em Murakami pode ser só o que eu já sabia procurar. Os discos me acolhem e me distraem do fundo japonês logo abaixo. Em Crônica do pássaro de corda, o espaguete da primeira página leva, algumas centenas de páginas depois, à história do tenente Mamiya, à batalha de Nomonhan e a um homem esquecido no fundo de um poço na Mongólia. Em Kafka à beira-mar, a floresta guarda soldados da Segunda Guerra que nunca saíram de lá. Em O assassinato do comendador, uma menção ao massacre de Nanquim bastou para irritar a direita japonesa. A guerra que o Japão prefere não lembrar está em toda parte, e eu, distraído pelos Beatles, quase não vejo.

O caso mais claro talvez seja Underground, o livro em que ele deixa a ficção de lado para ouvir vítimas do atentado com gás sarin no metrô de Tóquio e membros da seita que o cometeu. Ali não há jazz nem cerveja. Há um escritor japonês tentando entender o que aconteceu com o próprio país. Quem só conhece o Murakami “ocidentalizado” leva um susto.

Uma crítica incômoda vai além e sugere que o sucesso dele acabou moldando o que editoras e leitores estrangeiros esperam da literatura japonesa. O Murakami fácil seria, em parte, um produto do nosso gosto.

Isso diz menos sobre o escritor do que sobre nós. Cada leitor o recebe como espelho. O ocidental vê o Japão com a porta entreaberta, o asiático vê a própria cidade com um poço no quintal, e o japonês vê um conterrâneo que fala com sotaque. Ninguém vê a obra inteira.

Talvez seja essa a lição que vale levar para fora da literatura. Quando alguém nos parece fácil de entender, cabe perguntar se estamos entendendo a pessoa ou só reconhecendo o que já trazíamos. Com Murakami, pelo menos, a estranheza fica sempre ali, esperando que a gente pare de olhar para os discos e repare no carneiro.

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