Termino Caçando Carneiros e percebo que conheço o narrador melhor do que conheço alguns colegas de trabalho. Sei que ele fuma, que bebe cerveja como quem respira, que trabalha com redação publicitária numa pequena agência que divide com um sócio, que a mulher foi embora com um amigo dele, que tem um gato velho e um jeito de aceitar o absurdo com a mesma calma com que aceita a chuva. Sei como ele se move por um apartamento vazio. Só não sei como ele se chama. E, fechado o livro, percebo que isso nunca me fez falta.
Murakami constrói o romance inteiro assim. A garota que abre a história é lembrada pelo que fazia, e não por como era chamada. A namorada do narrador é a moça das orelhas extraordinárias, que trabalha como modelo de orelhas e tem intuições que ninguém explica. O amigo desaparecido é o Rato. O dono do bar é J, uma letra. O homem que ameaça o narrador é o homem de terno preto, secretário de alguém que só aparece como o Chefe. Depois vêm o Professor Carneiro e o Homem Carneiro. Nenhum desses é nome. São apelidos, funções, traços, iniciais. E, ainda assim, cada um deles ocupa um espaço nítido na memória de quem lê.
O que um nome faz, e o que ele não faz
A gente costuma tratar o nome como a porta de entrada de uma pessoa. Somos apresentados, ouvimos o nome, e parece que já sabemos alguma coisa. Mas o nome, sozinho, não diz nada. É um rótulo que outros escolheram antes de a pessoa existir, que a acompanha por conveniência administrativa e que serve, sobretudo, para que o mundo a encontre, a cadastre, a chame. Ele indica alguém sem descrever ninguém.
O próprio narrador desconfia disso. Em certo momento, confessa à namorada que não está muito convencido de que nomes sirvam para alguma coisa. Não é só uma escolha de estilo do autor, portanto. A dúvida está dentro do romance, na boca de quem o conta.
Ao retirar o rótulo, Murakami obriga o leitor a fazer o trabalho que o nome costuma dispensar: prestar atenção. Se não posso chamar a namorada do narrador de Keiko ou Yuki, preciso lembrá-la pelas orelhas, pela forma como ela prevê que um telefonema vai chegar, pelo jeito como decide ir embora sem drama. A identidade dela se forma pelo que ela faz e pelo modo como afeta quem está por perto. O mesmo vale para o Rato, que conhecemos por cartas, por ausências, pelas coisas que deixou para trás. A proximidade nasce da observação, e não da apresentação.
Há algo de quase desconfortável nisso. Estamos acostumados a pensar que dar nome é aproximar, humanizar, tornar singular. No romance, acontece o contrário. É a falta do nome que abre espaço para a singularidade aparecer, porque ela deixa de estar resolvida de antemão.
O único que ganha nome
A ironia mais fina do livro está no gato. O narrador nunca deu nome ao animal, e quando precisa deixá-lo aos cuidados do motorista do Chefe, é o motorista quem o batiza. A cena é breve e quase cômica, e o narrador se surpreende ao lembrar, ali, que ele também tem um nome. O único ser que recebe um nome próprio em toda a história é justamente aquele que não pode responder a ele, que não sabe que foi nomeado e que acaba de passar para as mãos de outra pessoa.
O nome, ali, aparece como gesto de quem nomeia. É um ato de posse, de cuidado, talvez de afeto, mas sempre vindo de fora. O gato continua sendo o gato. O que muda é a relação de quem o chama.
Isso ecoa o núcleo do romance. A organização do Chefe opera por controle, por registros, por fichas, por uma rede de poder que sabe localizar qualquer pessoa. O carneiro que dá título ao livro é uma força que entra nas pessoas e as ocupa, que as transforma em instrumento de uma vontade que não é delas. Num mundo assim, ser nomeado e identificado é ser capturado. O narrador sem nome atravessa a história com uma espécie de leveza teimosa, porque há nele alguma coisa que nenhum sistema consegue fixar. Ele é arrastado para a caçada, obedece, viaja até Hokkaido, mas nunca vira peça. Talvez porque não haja um rótulo pelo qual puxá-lo.
Parte da crítica lê essa ausência de nomes pelo avesso, como sinal de alienação e de perda da individualidade na vida moderna. Entendo a leitura, mas o romance me parece apontar para outro lado. Quem perde a individualidade ali são os possuídos pelo carneiro, e não os anônimos.
Quando o nome finalmente chega
Anos depois, em Dance Dance Dance, Murakami volta à garota das orelhas e lhe dá um nome: Kiki, palavra que em japonês remete a ouvir. Mesmo quando o nome chega, ele não inaugura uma identidade. Só nomeia aquilo que já conhecíamos dela. O nome vem depois da pessoa, e não antes.
Em Romancista como vocação, Murakami conta que, no começo da carreira, tinha vergonha de dar nomes aos personagens, que lhe parecia falso alguém como ele atribuir nomes a outros, mesmo inventados. Os primeiros livros eram escritos em primeira pessoa, muito próximos dele, e os nomes só apareceram quando passou a escrever em terceira pessoa. Seja qual for a razão biográfica, o efeito literário vai além de um hábito de escrita. O leitor fica diante de pessoas que só podem ser conhecidas por dentro da relação: pelo que dizem, pelo que calam, pelo que deixam no ar.
Ler sem etiqueta
É uma lição que serve fora do livro. Quantas vezes o nome, o cargo, o diploma, o sobrenome, a categoria funcionam como atalho que nos poupa de conhecer alguém? A gente classifica e segue em frente. O rótulo resolve a pergunta antes que ela seja feita. Caçando Carneiros desfaz esse atalho e nos deixa só com o que importa: gestos, hábitos, histórias partidas, a solidão compartilhada entre um homem cansado e uma mulher de orelhas impossíveis.
No fim, o narrador volta à cidade natal, segue o rio até a foz e se senta no pouco que restou da praia da juventude, já quase toda aterrada. Ali ele chora como nunca tinha chorado. Eu não preciso saber como ele se chama para entender o que perdeu. Sei quem ele é. E sei porque passei o livro inteiro prestando atenção nele, e não no nome que ele nunca teve.

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