Há uma cena de Caçando carneiros a que volto sempre, e não é nenhuma das estranhas. Não é o Homem Carneiro, nem o Professor Carneiro, nem a conversa no escuro com o amigo desaparecido. É uma cena de cozinha.
O narrador está sozinho numa casa isolada no alto das montanhas de Hokkaido. O inverno está chegando, a namorada foi embora, e ele não sabe exatamente o que está esperando. Sabe só que precisa esperar. Os cigarros acabaram e ele decidiu não fumar mais. O freezer, por outro lado, está cheio.
Então ele vai para a cozinha. Pica uma cebola, doura na frigideira. Tira do freezer um pedaço de carne, espera descongelar e mói com uma lâmina média, ele mesmo, sem pressa. Enquanto isso, pensa. As ideias vão e voltam, meio soltas, e ele deixa que elas se mexam na cabeça do mesmo jeito que mexe os ovos na panela com uma espátula de madeira. Quando a cebola fica pronta, ele não a mistura logo na carne. Espera que esfrie. E, enquanto espera, senta perto da janela e olha para o pasto vazio.
Não acontece nada. E é justamente isso que torna a cena tão boa. Um homem que não sabe o que fazer com a própria vida faz a única coisa que tem começo, meio e fim naquele dia: um bife de carne moída.
Nos dias seguintes, ele segue cozinhando. Rosbife, salmão marinado, verduras do pasto cozidas com bonito e shoyu, conserva de repolho. Prepara até uns petiscos, caso o Homem Carneiro apareça para beber. Ele não aparece.
A receita
O prato do livro é um Salisbury steak, primo americano do hambúrguer de panela, servido com molho de cebola. Abaixo, uma versão caseira, com os ovos mexidos ao lado, como na cena. Serve duas pessoas, ou uma pessoa esperando alguém.
Para os bifes
- 500 g de carne moída (patinho ou acém, moagem média)
- 1 cebola média bem picada
- 1 colher (sopa) de manteiga
- 1 ovo
- 3 colheres (sopa) de farinha de rosca
- 1 colher (chá) de sal
- Pimenta-do-reino e uma pitada de noz-moscada
- Um fio de óleo para selar
Para o molho
- 1 cebola em fatias finas
- 1 colher (sopa) de manteiga
- 1 colher (sopa) de farinha de trigo
- 250 ml de caldo de carne quente
- 1 colher (sopa) de molho inglês
- 1 colher (chá) de mostarda
Para os ovos
- 2 ovos
- 1 colher (chá) de manteiga
- Sal
Modo de fazer
- Doure a cebola. Derreta a manteiga numa frigideira em fogo médio e doure a cebola picada por uns 6 a 8 minutos, até ficar macia e dourada. Tire do fogo e deixe esfriar completamente. Esse é o momento de ir até a janela.
- Prepare a carne. Se tiver moedor, moa a carne você mesmo, como o narrador. Se não, peça ao açougue uma moagem média, nem fina demais nem grossa. Numa tigela, junte a carne, a cebola fria, o ovo, a farinha de rosca, o sal, a pimenta e a noz-moscada. Misture com as mãos só até incorporar. Mexer demais deixa o bife duro.
- Modele. Divida em quatro partes e faça bifes ovais de uns 2 cm de espessura. Aperte levemente o centro com o polegar para não estufarem na frigideira.
- Sele. Aqueça o óleo na mesma frigideira em fogo médio-alto e sele os bifes por 3 a 4 minutos de cada lado, até formarem uma crosta. Reserve num prato.
- Faça o molho. Baixe o fogo, coloque a manteiga e a cebola fatiada e cozinhe por 5 minutos, raspando o fundo da frigideira. Polvilhe a farinha e mexa por 1 minuto. Junte o caldo aos poucos, mexendo sempre, depois o molho inglês e a mostarda.
- Termine. Volte os bifes à frigideira, tampe e deixe cozinhar no molho por cerca de 8 a 10 minutos em fogo baixo, virando uma vez. Confira com um termômetro se o centro da carne moída chegou a pelo menos 71 °C; prolongue o cozimento se necessário.
- Os ovos. Em outra panela, derreta a manteiga em fogo baixo. Bata os ovos com uma pitada de sal e despeje. Mexa devagar com uma espátula de madeira, puxando das bordas para o centro, e tire do fogo quando ainda estiverem cremosos. Ovo mexido é pensamento solto: fogo baixo e paciência.
Sirva os bifes com bastante molho, os ovos ao lado e, se quiser ser fiel ao livro, um copo de uísque.
O que um bife tem a ver com um carneiro
Durante o livro inteiro, o narrador é empurrado. Recebe um ultimato, é mandado para Hokkaido, segue pistas que outros deixaram, espera por alguém que talvez nem apareça. Quase nada do que acontece com ele foi escolhido por ele. A cozinha é a exceção. Ali, cada gesto é dele: picar, dourar, moer, esperar esfriar, modelar. É um pequeno território de controle num mundo em que uma força misteriosa entra nas pessoas e decide por elas.
Tem também a questão da espera. A receita obriga a esperar a cebola esfriar, e a cena de Murakami transforma essa pausa em algo quase contemplativo. Ele não enche o tempo com ansiedade. Senta e olha o pasto. Cozinhar vira uma forma de habitar a espera em vez de só aguentá-la. É o oposto da impaciência de quem precisa de respostas, e o livro inteiro é sobre alguém que vai ter de aceitar não ter todas.
E há uma ironia que combina com o resto do romance. Num livro em que ninguém tem nome, o prato tem. Salisbury é o sobrenome de um médico americano do século XIX, James Salisbury, que o receitava como dieta. O único nome próprio da cena está grudado num bife, e não diz nada sobre ele. O que importa no prato, como nas pessoas do livro, é o que se faz com ele: a cebola dourada no ponto, a carne moída na hora, a paciência de esperar esfriar.
No fim, é uma cena sobre como seguir funcionando quando não se sabe o que vem. Não resolve nada. Mas alimenta. E às vezes é isso que dá para fazer enquanto o Rato não chega.

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